Profissionais
de escritórios virtuais gastam menos, atendem igual e vivem melhor
Rafael
Sento Sé
Revista Domingo JB
Domingo, 02 de Maio de 2004
Escapar da rotina estressante do Centro da cidade, sonho de
muitos executivos e profissionais liberais, é uma idéia que geralmente esbarra
no medo de certo excesso de informalidade. Um modo de superar o obstáculo,
pouco conhecido, mas que faz a cabeça de um número cada vez maior de pessoas, são os escritórios virtuais, modalidade de serviço que concilia o
aspecto formal de um escritório convencional com a comodidade de trabalhar em
casa. Uma secretária recebe as ligações e transfere para o cliente onde
quer que ele esteja. A dor de cabeça com despesas mensais de condomínio, luz,
telefone e água diminuem. Como num táxi, o usuário só paga
o tempo que usar.
Acostumados a trabalhar com música, os irmãos Fernando e Marcelo Viana, netos de Pixinguinha, não suportavam o som
de buzinas e motores do Centro. Herdeiros de um patrimônio de muito valor, eles
utilizam as salas do escritório Business Quality para administrar os
direitos sobre a obra do avô. Um dos motivos da opção pelo esquema virtual é
não ter a obrigação de ir todos os dias ao escritório.
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Herdeiros
de Pixinguinha, os irmãos Fernando |
- Às vezes tenho que ir a um estúdio ou tenho uma reunião no
escritório do cliente e posso fazer alguns trabalhos de casa. Não preciso estar
aqui todos os dias - explica Marcelo
Viana.
O dia-a-dia nas salas virtuais também agrada ao herdeiro, que
considera boa a convivência com pessoas de ramos variados. Como exemplo, ele
cita o trabalho de organização dos documentos e contratos dos direitos
autorais, realizado por um outro cliente do mesmo escritório.
- É um clima legal. Se você está com a cabeça quente, pode sair
pra dar uma volta e bater um papo. Como há pessoas com outros negócios, você
consegue conversar sobre outros assuntos e se desligar. Às vezes até convidam
para um coffee-break - brinca.
Apesar do clima mais leve dos escritórios, quando o assunto é
trabalho não falta seriedade e algumas saias-justas. Uma cliente do empresário Paulo Karnas, presidente da Associação Nacional dos Centros de Negócios e
Escritórios Virtuais, quase foi demitida depois que a filha
atendeu a uma chamada do chefe. A menina não hesitou em responder: ''Mamãe?
Está dormindo''.
- No dia seguinte, ela veio correndo fechar negócio - relata Karnas.
A cliente escolheu a categoria chamada endereço comercial, uma
espécie de telefone de recados. Quem liga nem imagina que a pessoa pode estar
em casa ou mesmo na praia. Também existe a opção de utilização de escritório ou
de sala de reunião. Não é um contrato de locação; o cliente paga uma taxa por
mês que varia de acordo com a freqüência de uso do escritório.
Profissionais de ramos pouco convencionais também procuram o
serviço. Antônio Sérgio Couto
dá aulas teóricas de mergulho no escritório Tempos Modernos. As aulas práticas
são em Arraial do Cabo. Por ser uma atividade sazonal - no inverno a procura
cai muito -, o professor preferiu optar pelos escritórios virtuais a alugar uma
sala. A localização no Centro também é importante.
- Muitos executivos procuram o mergulho como uma terapia. Tem
cliente que liga desesperado perguntando se tem barco no fim de semana -
justifica.
Em meio à mistura de tribos das turmas, a ansiedade dos mais
jovens contrasta com executivos na casa dos 40, que preferem aprender bem a
teoria antes de vestir a roupa de neoprene. Com 16
anos de experiência, Couto
identifica os casais iniciantes como os mais difíceis de lidar. No escritório,
durante as aulas, eles se ajudam, mas na hora de ir para o mar Couto já viu muita briga.
Os engenheiros Marco Abcaran e Wanderley Lobianco viveram
um episódio que provavelmente não se repetiria em um escritório convencional.
Descobriram muitas coincidências no dia de uma reunião, além de morarem na
mesma cidade, Niterói. Marcaram a primeira reunião no escritório virtual HQ, no Centro do Rio,
mas como Lobianco
estava atrasado ligou para avisar sobre o contratempo.
- Ele me perguntou onde eu estava. Quando soube que ia
atravessar a ponte, disse para eu voltar, pois também morava em Niterói -
explica Abcaran.
Sem precisar se preocupar com o escritório, pois o serviço é
pago conforme o tempo de uso, a reunião aconteceu em um restaurante. Abcaran, um ano mais novo, descobriu que os dois moraram na
mesma rua e fizeram o ginásio no mesmo colégio.
- Provavelmente a gente já tinha se encontrado
antes - conta o engenheiro, que optou pela modalidade para esquecer as
preocupações com o papel do fax que acabou ou com a luz queimada.
Outra vantagem, segundo Abcaran, está na imagem que
um endereço comercial conhecido transmite.
- Na hora de dar um cartão de visitas, é muito importante dar um
endereço que transmita credibilidade - acredita.
As mudanças no cotidiano também foram sentidas pelo professor Marcelo da Silva Roseira,
proprietário de um curso de preparação para pós-graduação em administração, que
resolveu subir a serra, com a mulher e dois filhos pequenos, em busca de
qualidade de vida. A gota d'água para a mudança foi o
dia em que levou três horas para ir de sua casa, no Recreio, ao trabalho, em
Botafogo, em um daqueles dias chuvosos.
A solução para conciliar o novo estilo de vida com as aulas foi o escritório
virtual. Nos dias de aula, sai de Teresópolis com destino ao Centro do Rio.
Como paga por tempo de utilização, sai mais em conta do que manter uma sala
convencional. Além de fugir de despesas com condomínio, aluguel e funcionários,
o professor encontrou uma forma de evitar violência e engarrafamentos.
- Mesmo que tenha de subir e descer a serra seis vezes por
semana, é mais vantajoso do que ir do Recreio a Botafogo todo dia, como era
antes. Hoje levo uma hora e meia para chegar ao escritório.
Apesar de a mudança ter apenas seis meses, a novidade conquistou outros integrantes da família. Os sogros se
mudaram, para ficar mais perto dos netos, e a nora só espera vender o apartamento
para adotar um novo estilo de vida.
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